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A Moldura da Memória

  • Foto do escritor: atornomade
    atornomade
  • 7 de nov. de 2025
  • 6 min de leitura

07/11/2025



A Rota Não Planejada: Da Performance Nômade à Escuta das Origens


A vida nômade, para mim, é quase sempre sinônimo de ir para. Ir para o próximo festival, para a próxima temporada, para o próximo país, mesmo carregando a bandeira e com raízes firmes em Goiânia, Goiás. É um movimento de prospecção, de construção de futuro. Mas e quando o nomadismo, esse desejo de liberdade geográfica, se torna a principal ferramenta para voltar?


Na medida que parceiros de trabalho, amigos e familiares foram deixando a cidade para conquistar algo diferente, meu desejo de que fosse mais fácil ir e vir ia aumentando.


Este ano, outubro de 2025, eu estava em São Jorge, na Chapada dos Veadeiros, apresentando meu espetáculo solo, "Katatonisch". O plano era simples: cheguei uma semana mais cedo para conviver na cidade e ensaiar no teatro A Barca Coração. Ao terminar a apresentação, ficaria mais um dia para acompanhar as últimas atrações do projeto Claque Cultural e, então, só voltar direto para Goiânia. A logística mandava, o cronograma pedia.


Mas a verdadeira vantagem da vida nômade não é o cronograma; é a capacidade de quebrá-lo, exceto em casos de compromissos físicos, presenciais.


Em vez de seguir o caminho esperado, fiz um desvio. Visitei uma amiga antiga em Brasília, revi parceiros locais de trabalho, e, de lá, tomei a decisão de mergulhar no meu próprio mapa afetivo: ir ver meu pai e minha família em Santa Maria da Vitória, na Bahia.


Nasci ali, mas, como muitos que saem cedo, parti aos dez anos de idade e conheci pouco minha própria região. Foi só depois de adulto, em viagens anuais com meu pai para (re)conhecer minha família paterna, que comecei a entender o traçado da minha história, um território que se estende da minha cidade natal até Livramento de Nossa Senhora, na base da Chapada Diamantina, ao lado da cidade Rio de Contas.


O que era para ser uma visita, muito ligeira este ano, se transformou em dez dias de imersão. Minha rotina deixou de ser menos a do artista em circulação e passou a ser mais a do filho e sobrinho. O centro do meu dia não era mais o palco; era a convivência intensa com minha tia e, principalmente, com meu pai. Claro, isso só foi possível porque tenho um imenso trabalho criativo e de produção, assim como estudos, que posso realizar à distância, via internet.


Mas no intervalo do trabalho online, ali, o "Ator Nômade" podia calar-se para que a escuta pudesse trabalhar.


Passei dez dias ouvindo, observando... escutando as histórias da roça, da natureza, da vida. As mesmas histórias de sabedoria sobre a terra e os ciclos que, por tanto tempo, minha vida profissional, quando aprisionada geograficamente, me impediu de parar para absorver. Este desvio não planejado acabou sendo o verdadeiro destino. Foi um lembrete de que, para um nômade, o ato mais radical, por vezes, é parar e escutar a origem. Saber onde e por quanto tempo parar.


Neste ano, tenho mergulhado nos estudos de "Linguagem Cinematográfica" com a professora Kalyne Almeida. Mais do que termos técnicos, estamos dissecando a mise-en-scène — tudo aquilo que é "colocado em cena" para produzir sentido. Como um exercício prático, nos foi proposto criar um vídeo. E no turbilhão de possibilidades estéticas, a minha escolha foi apontar a câmera não para o que eu queria inventar, mas para o que eu precisava escutar.


Meu sujeito de estudo não foi um ator, mas um "homem da terra": meu pai, Ibelmon Marques Carneiro.



O vídeo, ainda pouco editado, que acompanha este texto é o resultado desse exercício. Mas, para mim, tornou-se também algo mais profundo: um ensaio sobre como a câmera pode ser uma ferramenta de escuta e vestígios de como a sabedoria ancestral pode se revelar na mais pura linguagem cinematográfica, mesmo sem nunca ter ouvido falar dela.


O Corpo em Tela: A Atuação da Verdade


Nas aulas de Linguagem Cinematográfica, discutimos a "Atuação" como o corpo que habita a cena. Meu pai, Ibelmon, nunca frequentou uma escola de artes cênicas, mas sua performance é de um naturalismo que ator nenhum alcança sem vivência. Nascido na região quilombola de Mucambo Malheiros, em Livramento de Nossa Senhora, e tendo migrado ainda como um jovem adulto, atravessando o rio São Francisco com a família e os animais, ele carrega no corpo o visagismo do sol da Bahia e o figurino do trabalho diário.


Ele não "atua" como um homem da terra; ele o é. Sua expressividade não vem de uma técnica, mas da própria vida. Quando ele aponta para os Gerais (áreas extensas, cobertas de vegetação rasteira, esp. no planalto Central; descampado; cerrado), a vastidão de onde "nascem e vêm as águas", seu gesto é a própria mise-en-scène da sobrevivência.


A Imagem: Enquadrando os Gerais


Ali, no Oeste da Bahia, Cerrado e Caatinga se misturam. E a primeira lição que meu pai nos dá no vídeo é sobre a geografia sagrada da água. Ele explica como a água se infiltra nos Gerais e emerge "por baixo das serras", tornando a região rica. Preservar os Gerais é preservar a vida.


Para capturar isso, usei o que aprendemos sobre "Imagem". A iluminação é totalmente natural, uma luz dura que cria o contraste profundo entre o sol e a sombra, típico da caatinga. A paleta de cores é quente, terrosa. Usei planos gerais para que o cenário não fosse apenas um fundo, mas um personagem. Usei os espelhos do carro, o arame da cerca, os galhos da caatinga como moldura.


O Som: A Trilha Diegética da Lua


A segunda lição é a que mais me fascina: o segredo da lua minguante para o corte da madeira.


Aqui, o elemento principal da linguagem é o "Som". A fala do meu pai e a batida do machado são a trilha sonora principal. É um som diegético — ele pertence àquele universo narrativo. Não há música extra-diegética (aquela que só o espectador ouve) que possa competir com a textura da voz dele, com as pausas, com o ritmo de quem sabe porque viveu.


Ele explica que a madeira cortada na minguante dura o dobro. O angico, por exemplo. Por quê? Porque a minguante "desidrata" a madeira, impede a "putrificação" e as "lavas". As outras fases — nova, crescente, cheia — são "mais para desenvolvimento", para o inchaço da vida.


Enquanto ele fala, o silêncio ao redor (o som ambiente) ganha força. Em aula aprendi que o silêncio também "fala". O barulho do carro antigo, o som do vento e dos galhos secos se quebrando… Aqui, ele fala da vastidão do tempo, da paciência de observar os ciclos. O som da fala dele é a própria sabedoria.


O Exercício do Portal: A Câmera como Janela


Em determinado ponto do curso, a professora Kalyne nos propôs um exercício específico: "utilização de elementos poéticos: uma janela, uma porta... alguma 'moldura' que mostre algo por meio deste 'portal'."


Enquanto eu filmava meu pai, percebi que o exercício estava ali.


Meu pai, Ibelmon, é a moldura. O enquadramento da minha câmera, ao escolhê-lo, não estava apenas registrando um depoimento; estava emoldurando um portal. A sabedoria dele sobre a lua, o tempo das coisas e a água é um conhecimento que atravessa gerações, um saber que resiste à lógica produtivista e extrativista — aquela que derruba matas a qualquer hora, ignorando o tempo da natureza, pois só enxerga o recurso, e não o sistema.


O que meu pai sabe por vivência, hoje ecoa nos conceitos mais avançados de agrofloresta. O problema não é derrubar a floresta, é não plantar floresta… é a essência do que Ernst Götsch define como floresta sintrópica. Não se trata de uma lógica de "não intervenção" ou de preservação estática, mas de uma intervenção humana que acelera a vida, que coopera com os ciclos para gerar abundância e regenerar o solo. O saber do meu pai sobre a lua minguante para desidratar o anjico não é misticismo; é tecnologia ancestral. É pura sintropia aplicada a gerações.


Como no filme "A História da Eternidade", que analisamos em aula — onde a câmera observa o dia "do escuro da casa" —, minha câmera se tornou essa janela. Do "escuro" do meu conhecimento urbano, eu olhava através da "porta" (meu pai) para a "luz" desse saber ancestral. A mise-en-scène do vídeo é simples: um homem, a terra e a palavra. Mas o sentido que ela produz é complexo.


O plano que escolho, o enquadramento que faço, é uma "decisão ideológica", como ouvimos na aula. Escolher enquadrar meu pai falando sobre sua visão de mundo é uma escolha política de valorizar um conhecimento que o capital ignora.


Por fim, este vídeo é um exercício de linguagem cinematográfica, mas também um registro de memória. É a minha tentativa de usar a imagem (a secura dos Gerais - numa região mista de cerrado e caatinga), o som (a voz da experiência) e o enquadramento (o portal da memória) para construir o sentido maior para este primeiro post do blog  "Vida Nômade" – bastidores, viagens e reflexões sobre arte e movimento. Não é apenas sobre se mover no espaço, mas sobre criar novas conexões humanas, reestabelecer conexões antigas e religar conhecimentos. É sobre reaprender a escutar o tempo e re-aprender com o caminho.


 
 
 

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